Em 2021, um ano antes das eleições de 2022, eu vinha num táxi candongueiro cheio a caminho de casa, no regresso da escola. Como é normal em Angola, a van trazia umas dezasseis pessoas e entre elas gerou-se uma conversa sobre política. Eu não participei, fiquei só a ouvir, ainda jovem, curioso, querendo apenas o bem do meu país. Foi lá que ouvi, pela primeira vez, um dos passageiros a descrever o que faria se o seu partido chegasse ao poder. Cinco anos depois, com Angola a caminhos das eleições gerais de 2027, continuo a pensar nessa conversa sempre que alguém me pergunta: se o MPLA perder as eleições de 2027, Angola vai à guerra?
A pergunta é séria. Mas, como vais ver, está mal feita, e a razão está precisamente dentro daquele táxi.
O Táxi Onde Este Assunto Começou Para Mim
Eu era só um estudante a voltar da escola para casa, sentado entre desconhecidos naquele tipo de táxi cheio que faz parte do dia a dia em Angola. Não fazia parte da conversa, estava apenas a ouvir.
Foi lá que ouvi alguém a descrever o que faria de diferente do MPLA se o seu partido ocupasse o poder. E a resposta não era mudar o sistema, era copiá-lo. Mudar a bandeira, reescrever o hino nacional, ocupar o mesmo lugar de privilégio que na altura se criticava no partido no poder. Não por ideologia, mas por inveja. Pagar na mesma moeda.
Foi lá, naquele táxi, que percebi uma verdade desconfortável: o medo de perder o poder e a tentação de abusar dele, exatamente da mesma forma que se critica no adversário, não pertencem a um partido específico. Pertencem a qualquer pessoa que nunca teve de dividir o poder com um rival real.
É por essa lente, e não pela de "MPLA bom, UNITA má" ou vice-versa, que vou responder à pergunta do título. E ela começa por um facto que qualquer angolano sabe de cor, mas sobre o qual raramente para a medir o peso real.
O MPLA Nunca Perdeu Uma Eleição, e Isso Muda Tudo
Vamos ao facto mais simples e mais determinante de todos: desde a introdução da democracia multipartidária em Angola, em 1992, o MPLA nunca perdeu uma eleição geral. Nenhuma. Em quase 35 anos de eleições multipartidárias, o poder nunca mudou de mãos através das urnas.
Isso não é uma opinião, é história eleitoral verificável. E é precisamente por isso que 2027 é diferente de qualquer eleição angolana anterior: pela primeira vez, uma vitória da oposição deixou de ser um cenário puramente teórico.
Em 2022, o MPLA venceu com cerca de 51% dos votos contra 44% da UNITA, a margem mais apertada da história, com uma abstenção fixada nos 44,82% dos eleitores registados.
Cinco pontos percentuais. Foi essa a distância entre "o MPLA continua" e "Angola muda de partido no poder pela primeira vez em 47 anos". E é essa mesma margem apertada que explica o medo que vem a seguir: quando a distância entre ganhar e perder fica tão curta, quem está no poder sente, pela primeira vez a sério, que tem algo concreto a perder.
Quem Manda em Quê: o Estado e o Partido Confundidos
Esse medo, do lado do MPLA, não nasce do nada. A razão pela qual tanta gente teme uma transição violenta não é irracional, é estrutural.
Governadores provinciais e administradores municipais em Angola são, na esmagadora maioria, quadros do próprio MPLA. Isso já gerou, de forma documentada, episódios em que deputados de outros partidos, sobretudo da UNITA, enfrentam tratamento desigual em deslocações institucionais que deveriam ser neutras.
O exemplo mais recente e mais grave aconteceu em agosto de 2026, na província do Uíge: confrontos entre a Polícia Nacional e militantes e deputados da UNITA deixaram pelo menos 31 feridos, incluindo dirigentes parlamentares como Arlete Chimbina e Albertina Ngolo. Dias depois, a 12 de agosto, um pedido de voto de protesto sobre o episódio foi chumbado no Parlamento pela própria maioria do MPLA.
Não foi um caso isolado. Em julho de 2025, protestos nacionais contra o fim dos subsídios aos combustíveis, coincidindo com os 50 anos da independência, resultaram em pelo menos 5 mortos e mais de 1.200 detidos. Foi a mais grave agitação civil desde o fim da guerra.
É neste ambiente que ganha força uma frase que circula amplamente entre angolanos: a de que o próprio presidente João Lourenço já teria dito publicamente que quem não é do partido nunca teria emprego nem cargos de topo.
Esse padrão, confirmado pelo próprio presidente em dois momentos distintos, é a base real do medo generalizado. Só que há uma parte da história que este medo, sozinho, não explica.
A Virada Que Poucos Estão a Ver
Se o retrato acima fosse a história completa, a resposta à pergunta do título seria um "sim" fácil: o MPLA controla tudo, logo nunca vai deixar perder. Mas há dois desenvolvimentos recentes que complicam essa conclusão simples.
O primeiro: em dezembro de 2025, MPLA e UNITA aprovaram em conjunto uma revisão da lei eleitoral angolana que retira ao poder central o controlo direto sobre a contagem de votos. Até então, a contagem final era centralizada em Luanda, o ponto mais desconfiado de todo o processo eleitoral. A partir de agora, cada mesa de voto conta e publica o seu próprio resultado, em público, no local.
Não é uma garantia de eleição limpa. Mas é o partido que supostamente "nunca vai deixar perder" a ajudar a desenhar o mecanismo que torna mais difícil manipular a sua própria vitória.
O segundo desenvolvimento está do outro lado do tabuleiro: a UNITA de 2027 não é a UNITA de 1992. Adalberto Costa Júnior foi reeleito líder do partido em novembro de 2025 com cerca de 91% dos votos dos delegados, e já lançou formalmente a campanha presidencial em julho de 2025, mais de dois anos antes da eleição. A UNITA de hoje convidou formalmente a União Europeia, o Congresso dos Estados Unidos e o Carter Center para observarem o processo eleitoral de 2027.
apoio interno de Adalberto Costa Júnior
Percentagem dos votos dos delegados que reelegeram Costa Júnior como líder da UNITA em novembro de 2025, consolidando a liderança mais de dois anos antes da eleição de 2027.
É uma estratégia deliberada: tornar uma eventual vitória impossível de contestar sem prova internacional, ao contrário do que aconteceu em 1992. E é precisamente 1992 que precisamos de olhar de perto para perceber o que mudou, e o que não mudou, desde então.
1992 Não é 2027
Toda esta discussão tem um fantasma por trás: 1975 a 2002, os 27 anos de guerra civil angolana que se seguiram à independência, com um breve interregno eleitoral em 1992.
mortos na guerra civil angolana
Estimativa amplamente citada de vítimas fatais entre 1975 e 2002, com mais de 1 milhão de deslocados internos ao longo do conflito.
Foi em 1992 que Angola teve a sua primeira e única experiência real de "perder uma eleição": a UNITA rejeitou o resultado e retomou imediatamente a guerra. É esse precedente, não 1975, que mais pesa no medo atual.
Mas há uma diferença estrutural entre 1992 e 2027 que quase ninguém menciona: em 1992, a UNITA tinha um exército organizado, pronto para retomar o combate no dia seguinte à derrota. Hoje, essa força armada paralela não existe da mesma forma.
Isso não significa que o risco de violência tenha desaparecido. O Uíge, em agosto de 2026, mostra que não. Significa apenas que o material mais inflamável, hoje, já não é um exército rival pronto a marchar. É outra coisa, mais difícil de apagar com um cessar-fogo: décadas acumuladas de gente a sentir que nunca teve vez, seja qual for o partido no poder. E é aí, precisamente, que a resposta à pergunta do título deixa de estar nas estatísticas e passa a estar noutro sítio.
O Que Realmente Decide Se Há Guerra
Chegamos, então, ao ponto central, e à razão pela qual a pergunta "haverá guerra se o MPLA perder?" está mal feita.
João Lourenço está constitucionalmente impedido de concorrer a um terceiro mandato em 2027. O IX Congresso Ordinário do MPLA, marcado para 9 e 10 de dezembro de 2026, vai decidir quem lidera o partido a caminho dessa eleição, com candidatos como Higino Carneiro (candidatura anulada e em disputa no Tribunal Constitucional), António Venâncio e José Carlos de Almeida. Ou seja: mesmo dentro do próprio MPLA, 2027 já é, forçosamente, uma eleição sem Lourenço à frente da candidatura presidencial, pela primeira vez desde 2017.
E é aqui que aquela conversa no táxi volta a fazer sentido. O que decidiu, em 1992, que a derrota da UNITA terminasse em guerra não foi apenas o resultado da contagem, foi a certeza, dos dois lados, de que não havia lugar para o perdedor depois da vitória. É o mesmo instinto que ouvi em 2021, numa conversa que não prometia destruir nada, prometia copiar o mesmo abuso de poder que dizia combater. E é o mesmo instinto que o próprio Lourenço, em março de 2026, admitiu existir dentro do seu próprio partido, ao propor uma quota para corrigir décadas de acesso desigual a cargos.
A pergunta que decide o destino de Angola em 2027 não é "quem vai ganhar". É esta: seja quem for que vença, o sucessor escolhido em dezembro no Congresso do MPLA, ou Adalberto Costa Júnior pela UNITA, existe um plano real para governar com quem perdeu? Ou só mais um vencedor disposto a repetir o mesmo padrão de exclusão que alimentou o medo, em primeiro lugar?
A resposta a essa pergunta, mais do que qualquer número na urna, é o que vai decidir se 2027 entra para a história como uma eleição, ou como o início de outra coisa.
Perguntas Frequentes Sobre Angola e as Eleições de 2027
Para quem quer os dados e datas principais deste artigo num só lugar, aqui ficam as três perguntas mais comuns sobre o tema.
O MPLA alguma vez perdeu uma eleição em Angola?
Não. Desde a introdução da democracia multipartidária em 1992, o MPLA venceu todas as eleições gerais em Angola. Em 2022, venceu com a margem mais apertada da sua história: cerca de 51% contra 44% da UNITA, com uma abstenção de 44,82%.
Quando são as próximas eleições em Angola?
As próximas eleições gerais em Angola estão previstas para 2027, com o registo eleitoral a decorrer entre junho de 2026 e março de 2027. A data exata da votação ainda não foi oficialmente fixada até agosto de 2026.
Quem pode substituir João Lourenço como candidato do MPLA em 2027?
João Lourenço está constitucionalmente impedido de se candidatar a um terceiro mandato presidencial. O IX Congresso do MPLA, a 9 e 10 de dezembro de 2026, vai escolher a nova liderança do partido entre candidatos como Higino Carneiro, António Venâncio e José Carlos de Almeida.






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