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Por Que Angola Ainda Não Tem Autarquias, 50 Anos Depois

Desde 1975 que a lei promete autarquias em Angola. Veja a coincidência entre a derrota do MPLA em Luanda e a duplicação dos municípios em 2025.

5 min de leitura
Por Que Angola Ainda Não Tem Autarquias, 50 Anos Depois

Em 2022, a oposição venceu em Luanda pela primeira vez. Três anos depois, o governo duplicou o número de municípios do país. Isto não é uma teoria da conspiração. São só duas datas, e a explicação de por que Angola ainda não tem autarquias começa exactamente aqui.

O Que É uma Autarquia, e o Que Angola Tem Hoje em Vez Disso

Uma autarquia local é uma pessoa colectiva pública, distinta do Estado central, com órgãos eleitos directamente pelos munícipes: uma câmara municipal executiva, um presidente da câmara, uma assembleia municipal deliberativa. Hoje, em Angola, nada disto existe. Os administradores municipais e comunais são nomeados pelos governadores provinciais, que por sua vez são nomeados pelo Presidente da República. É desconcentração administrativa, não descentralização real.

Uma Promessa Que Atravessa Três Constituições

A primeira lei constitucional angolana, em vigor desde a meia-noite de 11 de novembro de 1975, já previa a institucionalização das autarquias locais, no seu artigo 51. A lei constitucional de 1992, já em contexto de pluralismo partidário, manteve essa previsão no artigo 14. A Constituição de 2010 mantém o princípio da autonomia local. Três documentos legais diferentes, ao longo de cinco décadas, e a promessa continua exactamente no mesmo sítio onde começou.

A Coincidência Que os Números Não Escondem

Aqui está o que a maior parte da cobertura sobre este tema não junta. Segundo análise académica publicada, o MPLA vem perdendo, desde 2008, cerca de 10% dos votos em cada eleição geral sucessiva. Em 2022, essa erosão teve um resultado simbólico: a UNITA venceu em Luanda, a capital que concentra cerca de 40% da população urbana do país e absorve grande parte da sua actividade económica.

~10%

Votos perdidos pelo MPLA a cada eleição geral, desde 2008

Segundo análise académica publicada. Em 2022, essa erosão traduziu-se na vitória da UNITA em Luanda, a capital do país.

Três anos depois, a 1 de janeiro de 2025, entrou em vigor uma nova divisão político-administrativa: Angola passou de 18 para 21 províncias, e de 164 para 326 municípios, mais do dobro. Luanda, especificamente, passou de 9 para 16 municípios.

164 → 326

Municípios em Angola, antes e depois de 2025

Luanda, sozinha, passou de 9 para 16 municípios. A justificação oficial é reduzir assimetrias regionais; a leitura académica é que isto adia ainda mais qualquer calendário de autarquias.

Duplicar o número de municípios a preparar exactamente quando a pressão para implementar autarquias aumenta é como alguém que promete construir uma casa assim que houver todos os materiais, e depois, sempre que os materiais quase chegam, decide duplicar o tamanho da casa.

Mesmo Quando a Lei Já Existe, o Desenho Institucional Favorece Quem Manda

Mesmo nas partes do pacote legislativo já aprovadas, há detalhes que pesam sempre para o mesmo lado. A Lei 3/20 permite que partidos políticos formem coligações eleitorais para concorrer às autarquias, mas não permite que grupos de cidadãos eleitores independentes façam o mesmo entre si. Os partidos, além disso, chegam às eleições autárquicas já com financiamento do Orçamento Geral do Estado vindo das eleições gerais anteriores. Um grupo de cidadãos independente, que precisa de recolher 150 assinaturas só para se candidatar, começa a corrida sem nada disso.

Depois há a chamada tutela administrativa: o poder de fiscalizar as autarquias pertence ao Presidente da República, que o delega nos governadores provinciais. Como os governadores são, tipicamente, também os primeiros secretários provinciais do partido no poder (situação visível também em disputas como na crise interna do MPLA), isto cria um problema estrutural sempre que um autarca de outro partido precisa de aprovação para o seu programa de governação.

O Aviso Que Vem de Moçambique

Há quem defenda que Angola devia simplesmente avançar depressa. A história recente de Moçambique sugere que a forma como isto é feito importa tanto quanto o simples facto de acontecer. O processo de autarquização moçambicano, iniciado em 1997 com apenas 33 municípios, foi gradual e desigual entre regiões. Segundo um jurista académico com experiência directa nessa reforma (contratado na altura pelo Banco Mundial), esse gradualismo desigual esteve associado ao ressurgimento de instabilidade armada no centro-norte do país na década de 2010, levando a uma revisão constitucional em 2018 que criou assembleias provinciais eleitas.

Angola tem o seu próprio trauma histórico a pesar nesta equação: as eleições gerais de 1992 foram seguidas por uma segunda guerra civil, que só terminou em 2002.

Perguntas Frequentes sobre as Autarquias em Angola

Por que Angola ainda não tem eleições autárquicas?

Angola prevê autarquias locais desde 1975, mas nunca as implementou. O pacote legislativo já está quase todo aprovado, mas falta a lei orgânica final, e o governo aumentou o número de municípios em 2025, o que adia ainda mais qualquer calendário de implementação.

Quantos municípios tem Angola depois da reorganização de 2025?

Desde 1 de janeiro de 2025, Angola tem 326 municípios em 21 províncias, mais do dobro dos 164 municípios em 18 províncias que existiam antes. Luanda, sozinha, passou de 9 para 16 municípios.

O Que Fica Por Ver

Continua sem data marcada para as primeiras eleições autárquicas em Angola, e não está esclarecido se acontecerão antes ou depois das eleições gerais de 2027. A lei já promete autarquias há cinco décadas. Os números dos últimos anos, a queda eleitoral do MPLA, a perda de Luanda, a duplicação dos municípios, não provam uma intenção. Mas também não deixam a palavra "coincidência" muito confortável.

Nicolau Alfredo

Sobre o autor

Nicolau Alfredo

Programador, criador e curioso por natureza.

Escrevo sobre ideias, marketing, filmes, documentários, jogos e tudo aquilo que desperta a minha curiosidade.

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