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UNITA no Uíge: o Dia em Que Balas Reais Calaram um Comício

Polícia cerca a sede da UNITA no Uíge e dispara balas reais no dia do 92.º aniversário de Savimbi. Os factos confirmados e as versões em conflito.

5 min de leitura
UNITA no Uíge: o Dia em Que Balas Reais Calaram um Comício

Meio-dia, sábado, 8 de agosto de 2026. Na cidade do Uíge, um carro é alvejado com um dirigente político lá dentro, gás lacrimogéneo enche o ar e, poucas horas depois, o presidente do maior partido da oposição angolana acusa o Estado de ter criado ali um "estado de guerra". Foi assim que a UNITA no Uíge se tornou, de um dia para o outro, no centro de um confronto sobre o qual quase ninguém em Angola concorda.

O Que Aconteceu no Uíge, Hora a Hora

O acto que devia decorrer no Uíge não era um comício qualquer. Marcava o 92.º aniversário de Jonas Malheiro Savimbi, fundador da UNITA, nascido a 3 de agosto de 1934. Para um partido que nasceu da luta pela independência e atravessou décadas de guerra civil antes de se tornar oposição eleitoral, esta não é uma data simbólica menor, sendo quase um ritual de identidade.

A Chegada de Adalberto Costa Júnior e o Cerco Policial

Adalberto Costa Júnior, presidente da UNITA, chegou ao Uíge na sexta-feira, 7 de agosto, para presidir pessoalmente ao acto central. No dia seguinte, a Polícia Nacional cercou a sede provincial do partido e bloqueou as vias de acesso, impedindo, na prática, que militantes e o próprio presidente do partido chegassem ao local previsto.

Balas Reais ao Meio-Dia: o Relato de Quem Esteve Lá

Foi por volta do meio-dia de sábado que a situação escalou. Segundo o relato do secretário-geral da JURA (a juventude da UNITA), Nelito Ekuikui, a polícia começou a disparar gás lacrimogéneo e munições reais. O próprio Ekuikui diz ter sido alvo directo de um ataque ao veículo em que seguia, mas escapou ileso ao ser socorrido por populares que o ajudaram no momento.

A população não reagiu, não atirou nada.

Nelito EkuikuiSecretário-geral da JURA, citado pela RTP/Lusa

Fontes jornalísticas independentes confirmam pelo menos duas pessoas feridas, uma delas atingida a tiro no pé. É este o piso mínimo que se pode dar como confirmado, mas não é, como se vai ver a seguir, o único número em cima da mesa.

Duas Versões, Um Único Confronto: UNITA Contra Polícia Nacional

A partir daqui, os relatos deixam de bater certo.

Adalberto Costa Júnior acusou as autoridades locais de terem criado um verdadeiro "estado de guerra" no Uíge, e acabou por adiar o acto central em homenagem a Savimbi. A Polícia Nacional, por seu lado, justificou a intervenção dizendo que a UNITA pretendia realizar a actividade partidária num "local impróprio", junto ao edifício do tribunal, e criticou o próprio fecho de vias públicas para actos políticos, sem, até hoje, se pronunciar publicamente sobre o número de feridos ou sobre o uso de munições reais.

O Bloco Democrático, plataforma de partidos e organizações da sociedade civil, foi mais longe: falou em "dezenas" de feridos graves, vítimas de balas reais, agressões físicas e gás lacrimogéneo, classificando o episódio como "repressão brutal" e um "estado de sítio" não declarado que paralisou a circulação de pessoas e o comércio na cidade.

Qual das duas versões é a correcta, quem violou a legalidade primeiro, quantos ficaram mesmo feridos? Nenhuma fonte jornalística independente consultada nesta investigação resolve essa disputa de forma conclusiva. E é precisamente essa incerteza, mais do que qualquer detalhe isolado, que devia preocupar quem segue este caso.

Do outro lado da fronteira, a reacção não tardou: a RENAMO, principal partido da oposição em Moçambique, outro antigo movimento guerrilheiro transformado em força política tal como a UNITA, condenou publicamente o "uso desproporcional" da força policial contra o partido angolano.

Este Não É o Primeiro Confronto, o Padrão Por Trás do Uíge

Um episódio isolado seria já grave. Mas o Uíge não nasceu do nada.

Em 2022, nas eleições gerais mais disputadas da história democrática angolana, o MPLA venceu com cerca de 51% dos votos contra 44% da UNITA, um resultado que a oposição contestou sem conseguir reunir prova organizada suficiente para o reverter. É directamente a esse momento que Nelito Ekuikui se referiu ao avisar que, desta vez, o partido "não vai apelar à serenidade" como fez então, o que é um sinal claro de que a paciência interna da UNITA com este tipo de episódio está a esgotar-se.

Em abril de 2024, uma caravana da UNITA foi atacada, com um saldo de um morto e seis feridos. O Uíge, em agosto de 2026, é portanto o mais recente de uma sequência, e não um raio em céu limpo.

44%

Votação da UNITA nas eleições gerais de 2022

Frente aos cerca de 51% do MPLA, no resultado mais disputado da história democrática angolana, sendo este o momento que Ekuikui invocou ao avisar que desta vez o partido não vai pedir serenidade.

Perguntas Frequentes sobre o Ataque no Uíge

Quantas pessoas ficaram feridas no ataque da polícia à UNITA no Uíge?

Fontes jornalísticas independentes confirmam pelo menos duas pessoas feridas, uma atingida a tiro no pé. O Bloco Democrático afirma que o número real chega a dezenas de feridos graves, mas esse balanço não foi confirmado de forma independente até à data.

Por que a polícia impediu o comício da UNITA no Uíge?

A Polícia Nacional alegou que a UNITA pretendia realizar o acto num local impróprio, junto ao tribunal, e criticou o fecho de ruas para actividades políticas, uma versão contestada pela própria UNITA, que considera o acto convocado dentro da lei.

O Que Fica Por Responder

O que aconteceu no Uíge não termina numa conclusão arrumada. Termina numa pergunta desconfortável: quando nem a contagem de feridos reúne consenso, o que é que resta como verdade partilhada entre governo e oposição em Angola? Por enquanto, nenhuma investigação independente respondeu a essa pergunta, e é essa ausência, tanto quanto os disparos de sábado, que continua a definir o espaço político do país.

Nicolau Alfredo

Sobre o autor

Nicolau Alfredo

Programador, criador e curioso por natureza.

Escrevo sobre ideias, marketing, filmes, documentários, jogos e tudo aquilo que desperta a minha curiosidade.

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