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Como os gurus da internet ficam ricos (e por que o teu curso não te vai enriquecer)

Descobre como funciona a economia dos cursos para ganhar dinheiro na internet, por que a maioria perde e o que aprendi ao trocar promessas por programação.

9 min de leitura
Como os gurus da internet ficam ricos (e por que o teu curso não te vai enriquecer)

Eu já gastei muito dinheiro à procura de atalhos. Quando cheguei à Itália, sozinho, com contas para pagar e uma vontade enorme de mudar de vida, a internet parecia um catálogo aberto de milagres financeiros. Se abria o YouTube ou o Instagram, o algoritmo empurrava-me sempre os mesmos rostos: jovens de 20 anos encostados a carros desportivos no Dubai, promessas de liberdade geográfica e anúncios agressivos garantindo que qualquer pessoa podia faturar milhares de euros por mês. Não resisti. Comprei cursos para ganhar dinheiro com marketing de afiliados, comprei cursos de dropshipping e cheguei a arriscar no day trade.

Durante muito tempo, quando as coisas não funcionavam, eu achava que o defeito era meu. Achava que não tinha acordado cedo o suficiente, que me faltava a tal "mentalidade milionária" ou que não tinha seguido o método com disciplina militar. Mas à medida que fui abrindo os ficheiros dos cursos e analisando o que estava por trás daqueles painéis de vendas, a ficha finalmente caiu. O problema nunca foi a minha falta de esforço. O problema é que o negócio desses gurus nunca foi aquilo que eles ensinam no curso. O negócio deles és tu.

A minha época de comprador de cursos: da ilusão ao despertar

No meu primeiro ano na Europa, a tentação do ganho rápido é quase irresistível. Tu estás num país novo, a moeda é forte, mas o custo de vida aperta. Foi nesse cenário que comprei o meu primeiro treinamento de marketing de afiliados. A promessa era simples: aprender a vender produtos na internet e receber comissões automáticas enquanto dormes.

A primeira surpresa desagradável veio logo no início: o curso tinha sido pensado para plataformas brasileiras que, para um estrangeiro a viver na Itália, simplesmente não ofereciam opções práticas de levantamento nem integração com o mercado europeu. Mas isso foi apenas o detalhe superficial. O verdadeiro choque aconteceu quando cheguei aos módulos práticos.

O que o formador ensinava, passo a passo, não era como analisar um mercado, encontrar dores de clientes reais ou negociar com marcas. O método resumia-se a uma única instrução: afiliar-me ao próprio curso dele, copiar os anúncios prontos que ele fornecia e começar a vender aquele mesmo curso a outras pessoas para ganhar comissão.

A mecânica é assustadoramente simples. O professor vende-te um curso. Tu pagas. Depois, em vez de aprenderes uma profissão independente ou construíres profissões reais no mercado digital, transformas-te num vendedor comissionado do produto dele, pagando do teu próprio bolso os anúncios do Facebook para encontrar os próximos compradores. Ele não estava a formar novos empresários. Estava a construir um exército de distribuição financiado pelos próprios alunos.

O verdadeiro modelo de negócio: por que o produto é a tua esperança

Quando percebi a engrenagem dos afiliados, decidi mudar de rumo e tentar o dropshipping. A promessa parecia mais séria: criar uma loja online na Shopify, encontrar um produto vencedor, mandar entregar direto da China para o cliente e ficar com a margem sem precisar de stock.

Comprei outro treinamento, paguei ferramentas e comecei a estudar as aulas. Foi aí que as inconsistências começaram a acumular-se de forma gritante.

A fábrica de chaves que só abre a própria fábrica

Sempre que os professores mostravam exemplos de lojas de sucesso dentro das aulas, eu dava uma pausa no vídeo e ia pesquisar os endereços no navegador. As lojas estavam quase sempre fora do ar, com domínios expirados ou sem qualquer movimento real.

Mais grave ainda: dentro da comunidade fechada, os formadores entregavam aos alunos listas dos chamados "produtos campeões", recomendando fornecedores específicos com os quais eles próprios tinham parcerias comerciais. O resultado era imediato e previsível: milhares de alunos desesperados começavam a rodar exatamente os mesmos anúncios, disputando o mesmo público no Meta Ads e inflacionando o custo do clique. A margem evaporava-se em três dias.

Enquanto os alunos queimavam as suas poupanças em publicidade sem conseguir uma única venda lucrativa, quem estava a faturar com garantia matemática? O formador. Ele ganhava com a venda do curso, ganhava com a comissão da Shopify por cada loja criada através do seu link, e ganhava comissões dos intermediários de logística recomendados. O aluno assume todo o risco operacional; o guru fica com a margem líquida limpa.

Faturamento bruto vs lucro líquido: o truque dos dashboards

A maior arma de sedução dessa indústria é o screenshot de faturamento. Quando alguém coloca na tela um gráfico verde a dizer "Faturei 500.000 € este mês", a nossa mente associa automaticamente aquele número a dinheiro no bolso.

Só que faturamento não é lucro. Uma loja de comércio eletrónico pode faturar 100.000 € num mês e gastar 85.000 € em anúncios no Facebook, 15.000 € em custo de mercadorias e 5.000 € em taxas de pagamento e devoluções. No fim das contas, a operação faturou cem mil mas fechou com cinco mil euros de prejuízo real.

97%

das pessoas que operam day trade têm prejuízo comprovado

Estudo da FGV com quase 20 mil investidores revelou que menos de 0,5% conseguem lucrar mais do que um salário mínimo de forma sustentável.

O mesmo padrão repete-se no day trade. Um estudo histórico da Fundação Getulio Vargas (FGV), conduzido pelos economistas Fernando Chague e Bruno Giovannetti com quase 20 mil operadores, revelou que 97% das pessoas que tentaram day trade perderam dinheiro. Menos de meio por cento conseguiu ganhar mais do que um salário mínimo com regularidade. Trata-se de uma dinâmica de ilusão e perdas consecutivas muito parecida com a dependência em apostas e promessas de ganho fácil, onde o participante acredita que a próxima tentativa vai compensar os prejuízos acumulados. No entanto, o mercado de venda de salas de sinais e cursos de análise gráfica continua a produzir milionários, não pelos gráficos acertados, mas pela mensalidade cobrada aos membros.

Não se trata de dizer que toda a gente mente ou que é impossível ganhar dinheiro no comércio digital. Existem profissionais competentes e negócios sérios. O problema é a assimetria: os dados da Federal Trade Commission (FTC) nos Estados Unidos mostram que, em esquemas de oportunidades de negócios e cursos de enriquecimento digital, mais de 95% a 99% dos compradores nunca chegam a recuperar o valor do investimento inicial.

A loja de pás na corrida do ouro digital

Para entender por que essa indústria nunca morre, basta olhar para o ano de 1849, durante a famosa Corrida do Ouro da Califórnia. Milhares de homens abandonaram as suas famílias e gastaram tudo o que tinham para viajar até aos rios do oeste americano, sonhando encontrar pepitas e enriquecer da noite para o dia.

A esmagadora maioria terminou na miséria, doente ou afundada em dívidas na lama dos garimpos. Mas um homem chamado Samuel Brannan percebeu algo diferente. Em vez de ir para o rio garimpar ouro, Brannan comprou todas as pás, picaretas e bacias de metal da região por centavos, e depois foi para o centro da cidade anunciar a descoberta do ouro. Quando a multidão enlouquecida chegou, ele vendeu as pás a preços exorbitantes. Brannan tornou-se o primeiro milionário da história da Califórnia sem nunca ter cavado uma pepita.

Os vendedores de cursos de enriquecimento rápido são os Samuel Brannan da internet moderna. Eles sabem que garimpar no mercado de anúncios digitais é volátil, arriscado e desgastante. Por isso, preferem ficar na margem seca a vender as pás: os cursos, as mentorias e o software.

O próprio caso de grandes nomes do mercado internacional confirma essa lógica. Em fevereiro de 2020, numa entrevista concedida à plataforma Starter Story, o influenciador britânico Iman Gadzhi declarou abertamente que a sua plataforma de cursos, a GrowYourAgency, faturava cerca de 120 mil dólares por mês, o equivalente a cerca de 1,44 milhão de dólares por ano. Ficar rico a prestar serviços a empresas locais é um negócio lento e complexo; ficar rico a vender a jovens o sonho de prestar esses serviços é uma máquina de escala brutal.

O novo gatilho do pânico: a inteligência artificial e a falsa janela de urgência

Quando um modelo de persuasão começa a perder força porque o público ganha maturidade, a indústria dos infoprodutos precisa de renovar o combustível. E nos últimos meses, esse combustível tem um nome bem conhecido: a Inteligência Artificial.

Recentemente, temos assistido a influenciadores veteranos de finanças a adotarem uma retórica de urgência extrema: discursos do tipo "você só tem 5 anos para ficar rico antes que a IA destrua todos os empregos humanos". Criam um cenário apocalíptico onde os empregos de entrada estão a desaparecer, as empresas vão dispensar equipas inteiras e, se não te transformares num solopreneur dono de uma comunidade digital agora, vais ficar preso na pobreza para sempre. Esse tom catastrófico aproveita-se do medo colectivo, repetindo a fórmula dos discursos apocalípticos sobre o fim do trabalho para criar uma sensação de emergência artificial.

Esse pânico não é uma previsão científica desinteressada. É um gatilho clássico de escassez e medo desenhado para funis de vendas. Depois de gerar ansiedade existencial no espectador, o vídeo apresenta a solução mágica: inscrever-te numa masterclass gratuita que te vai colocar dentro de novas plataformas de assinaturas e comunidades pagas.

A tecnologia muda, as ferramentas evoluem, mas o princípio de monetização permanece idêntico: explorar a insegurança das pessoas em momentos de transição econômica para vender atalhos empacotados.

A viragem prática: por que troquei a venda de ilusões pelo código

Depois de meses a perder dinheiro em campanhas de tráfego que não convertiam e a assistir a aulas que me ensinavam a revender ilusões, tomei a decisão mais importante do meu percurso: fechei todos os painéis de afiliados, apaguei as contas de dropshipping e decidi aprender programação.

A diferença entre uma habilidade técnica real e uma oportunidade de enriquecimento rápido é a autonomia do valor. Em vez de procurar atalhos mágicos, foi preciso construir disciplina e vencer a resistência de aprender uma competência difícil do zero, lidando com a frustração diária de resolver problemas reais.

Se eu escrever um sistema em código que organiza uma base de dados, automatiza um processo burocrático ou coloca uma aplicação funcional no ar, aquele código gera valor por si mesmo. O cliente que contrata esse serviço não quer saber se eu tenho um Lamborghini na garagem, se vivo no Dubai ou que roupa estou a usar. O código ou resolve o problema ou não resolve. A competência técnica sustenta-se pela utilidade prática do que produz, não pelo espetáculo de quem a ensina.

Se a resposta a essa pergunta for não, tu não estás diante de um mestre de negócios. Estás diante de alguém cuja principal especialidade é vender a ilusão do próprio sucesso.

Construir independência financeira é possível, e o mundo digital oferece oportunidades reais que nunca existiram para as gerações anteriores. Mas esse caminho é feito de competências concretas, esforço paciente, estudo técnico e resolução de problemas reais para pessoas reais. Qualquer proposta que te tente convencer do contrário está apenas a tentar cobrar-te a entrada para um teatro onde o único que enriquece é quem está no palco.

Nicolau Alfredo

Autor

Nicolau Alfredo

Programador e autor do blog.

Escrevo sobre tecnologia, marketing, cinema, jogos e cultura.

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